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Abismo na ambição de liderança: por que as mulheres precisam aprender a combatê-la

RespeitAme por: Ana Flávia Hantt em: 15/10/2017 | 15:00

Quando Sheryl Sandberg estava negociando sua remuneração com Mark Zuckenberg, fundador e diretor executivo do Facebook, recebeu uma proposta que julgou como justa. Ela conta que ambos tinham se reunido várias vezes por semana por mais de um mês, discutindo a missão e perspectivas do Facebook, e que estava pronta para aceitar o emprego. 'Não, eu estava morrendo de vontade de aceitar o emprego', escreveu. Ao mesmo tempo, o marido de Sheryl dizia que ela deveria continuar a negociar, mas a profissional tinha medo de fazer alguma coisa que pudesse estragar tudo. 'Eu podia negociar duro, mas aí talvez Mark não quisesse trabalhar comigo. Valeria a pena, já que no fundo eu sabia que ia aceitar a proposta? Concluí que não valia'.

Pouco antes de fechar o trato, o cunhado de Sheryl, exasperado, disse o que foi um divisor de águas na negociação: 'Por que você vai ganhar menos do que qualquer homem ganharia para fazer o mesmo serviço?'. A executiva escreve que o cunhado não sabia os detalhes da negociação, mas sabia que nenhum homem em seu nível sequer pensaria em aceitar a primeira proposta. 'Então iniciei uma negociação pesada, e passei a noite toda nervosa pensando se tinha estragado tudo. Mas Mark me ligou no dia seguinte. Ele solucionou a questão melhorando a proposta salarial, ampliando os prazos do contrato de quatro para cinco anos e permitindo também que eu comprasse ações da empresa'.

Foto: Divulgação / Tudo & Todas'Ela é muito ambiciosa não é um elogio em nossa cultura. Mulheres agressivas e que jogam duro transgridem regras tácitas da conduta social aceitável.'
'Ela é muito ambiciosa não é um elogio em nossa cultura. Mulheres agressivas e que jogam duro transgridem regras tácitas da conduta social aceitável.'

Isso tudo ocorreu em 2008, e hoje Sheryl Sandberg, aos 48 anos, é diretora de operações do Facebook e sétima mulher mais poderosa do mundo, segundo lista da revista Forbes. Em seu livro 'Faça acontecer', publicado em 2013 ('Lean In', no título original), ela mostra em pouco mais de 220 páginas, como as mulheres, embora tenham vencido muitas barreiras, ainda estão muito longe de alcançar, verdadeiramente, cargos de poder.

Em todos os empregos depois da graduação, no nível inicial, havia entre meus colegas um equilíbrio de homens e mulheres. Eu via que os chefes de escalão mais alto eram quase todos homens, mas pensava que se devia à discriminação histórica contra as mulheres. Em quase todos os setores, a famosa barreira invisível tinha se rompido e eu achava que era apenas uma questão de tempo até que minha geração ficasse com uma parcela justa dos papéis de liderança. Mas a cada ano que passava, diminuía o número de colegas do sexo feminino. Cada vez mais eu era a única mulher na sala'.

Abismo na ambição de liderança

Sheryl Sandberg fala que homens e mulheres possuem uma enorme diferença de ambição em ocupar um cargo de chefia. É o que ela chama de 'abismo na ambição de liderança'. Em 'Faça acontecer', a executiva cita pesquisa da McKinsey, realizada em 2012, com mais de 4 mil funcionários de grandes empresas. O estudo revelou que 36% dos homens queriam se tornar diretores executivos, contra 18% das mulheres.

Nos seis anos e meio que trabalhei no Google, contratei uma equipe de 4 mil funcionários. O que percebi ao longo dos anos foi que, de modo geral, os homens aproveitavam as oportunidades muito mais rápido do que as mulheres. Quando anunciávamos a inauguração de um novo escritório ou o início de um novo projeto, logo os homens estavam derrubando minha porta para explicar por que eram eles que deveriam tomar a frente. Já as mulheres eram muito mais cautelosas na hora de mudar de função e procurar novos desafios. Peguei-me várias vezes tentando persuadi-las a trabalhar em novas áreas'.

Por que estamos falando sobre isso?

Foto: Divulgação / Tudo & Todas
'Faça acontecer' foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras

Na última semana, a Folha do Mate sediou o evento Empodere - edição Venâncio Aires, o qual reuniu cerca de 70 mulheres para trocar experiências do universo dos negócios e discutir o empreendedorismo. Representantes de todas as idades e de segmentos diversos participaram da programação, e mostraram a importância da liderança feminina para o desenvolvimento da economia e geração de empregos.

Na maioria dos relatos, embora se sobressaíssem as histórias de superação e conquista, alguns pontos se mostraram comuns: a insegurança, o medo de não 'dar conta', a falta de modelos femininos no mesmo cargo ou segmento, assim como alguma figura masculina (pai, irmão, marido) como referência de incentivo ou desafio.

Essas questões, no entanto, não são exclusivas de um grupo de empresárias. Em 'Faça acontecer', Sheryl Sandberg diz que além das barreiras levantadas pela sociedade, as mulheres também são tolhidas por barreiras dentro de si. 'Nós nos refreamos de várias maneiras, em coisas grandes ou miúdas, por falta de autoconfiança, por não levantar a mão, por recuar quando deveríamos fazer acontecer.' A executiva diz que as mulheres interiorizam as mensagens negativas que ouviram ao longo da vida - é errado ser ambiciosa, assumir riscos, defender a própria posição ou ser mais poderosa que os homens, especialmente o marido -, e assim, reduziram a expectativa do que poderiam realizar.

>> Baixa ambição feminina vem da infância

O abismo na ambição de liderança vem da infância. Enquanto os meninos são estimulados a salvarem o mundo com seus heróis, as meninas são incentivadas a serem doces princesas e a cuidarem de suas bonecas. A diferença também está na moda. Sheryl Sandberg cita em seu livro a marca americana Gymboree, que pôs à venda macacões proclamando 'Inteligente como o papai' para os meninos, e 'Bonita como a mamãe', para as meninas. No mesmo ano, a J.C. Penney anunciou uma camiseta para garotas adolescentes que dizia: 'Sou bonita demais para fazer a tarefa de casa; então meu irmão tem de fazer para mim'.

Em entrevista publicada na última edição do Gente & Negócios, a coach e cofundadora do Empodere, Daiane Nascimento, afirmou que a maioria das mulheres busca um negócio que lhes permita passar mais tempo com a família. No entanto, fica a questão: se os meninos fossem estimulados a brincar de 'papai e filhinho' quando fossem crianças, não haveria mais homens preocupados com o tempo que dividem entre o trabalho e os filhos? Baixar a expectativa profissional para acompanhar o crescimento das crianças é mesmo 'coisa de mulher', ou é um resultado de uma cultura profundamente entranhada no inconsciente coletivo?

A resposta não é simples, e a mudança, menos ainda. Mas sem sombra de dúvidas, começa dentro das famílias, e na forma como meninos e meninas são criados.

 

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