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A Força do Querer: psicóloga comenta os dilemas de Ivana, personagem transexual vivida pela atriz Carol Duarte

Comportamento por: Taiane Kussler em: 09/06/2017 | 21:00

A trama da novela 'A Força do Querer', de Glória Perez, pretende abordar a questão de gênero vivenciada pela personagem transexual homem Ivana, interpretada pela atriz Carol Duarte, além disso, gerar um debate na sociedade sobre esta questão, que possui muitos casos também na vida real.

Com todos os ensinamentos sobre moda e vaidade recebidos da mãe, Joyce, vivida pela atriz Maria Fernanda Cândido, a menina fez de tudo para colocar em prática e seguir a vontade da matriarca. Porém, Ivana nunca esteve de bem consigo mesma e sempre percebeu que havia algo de 'errado' em seu corpo, sem entender direito esta situação.

Foto: Divulgação / Tudo & TodasMesmo incentivada pelos familiares e amigos, Ivana não consegue
Mesmo incentivada pelos familiares e amigos, Ivana não consegue 'se enxergar' como uma mulher e adota comportamentos diferentes daqueles idealizados pela família

O que ocorre, é que a personagem não consegue se reconhecer como mulher e sofre de probremas com a autoestima, o que consequentemente afeta o convívio social e os relacionamentos amorosos. E apesar de ter vivido na infância uma fase bem feminina, inspirada pela mãe, na época ela ainda não tinha se descoberto como pessoa e definido o seu verdadeiro gênero.

Segundo a psicóloga Adriana Oswald, desde a concepção ou antes dela, a mãe, o pai e a família constroem uma figura ou identidade a respeito desse novo ser que passará a ser membro. O nome, as características, planos de vida começam a ser construídos antes mesmo que o bebê possa ter uma compreensão real do que isso significa.

Foto: Divulgação / Tudo & TodasA mãe (Joyce) interpretada pela atriz Maria Fernanda Cândido, constrói uma figura ou identidade desde a infância da menina Ivana
A mãe (Joyce) interpretada pela atriz Maria Fernanda Cândido, constrói uma figura ou identidade desde a infância da menina Ivana (interpretada pela atriz Antonietta Uhebe, de apenas três anos).

A partir deste processo, atravessado por muitos outros fatores familiares, socioculturais, escolares, entre outros, o gênero e suas construções começam a se desenhar. De acordo com Adriana, reconhecer esse novo membro, apesar de pequeno e indefeso, como um ser que tem vontades próprias, necessidades próprias e que aos poucos irá manifestar seus desejos e interesses, reconhecendo nele um sujeito único, e provavelmente diferente do idealizado pela família, é de extrema importância para facilitar as relações familiares.

Foto: Divulgação / Tudo & TodasJoice não aceita esta postura da filha e não quer conviver com esta realidade
Na trama, Joyce não aceita esta postura da filha Ivana e mascara esta realidade

Na novela, a personagem não gosta de maquiagem, roupas da moda e não possui nenhuma vaidade, o que causa preocupação à mãe. Situações como esta, também ocorrem na vida real e se tornam um assunto delicado, algumas vezes, difícil de ser abordado em família. Adriana lembre que esse tema ainda é considerado um tabú, porque representa uma realidade oposta dos 'conceitos convencionais', e que muitas vezes é encarado como uma ameaça.

Tudo aquilo que se apresenta diferente do que imaginamos, planejamos ou prevemos é encarado muitas vezes como uma ameaça, como algo que não seremos capazes de suportar, como algo produtor de sofrimento psíquico ou motivo para possíveis rejeições sociais. Por isso a dificuldade de falar sobre, a negação aparece como uma defesa psíquica para lidar com algo que supostamente pode abalar nosso equilíbrio emocional", salienta Adriana Oswald.

Foto: Divulgação / Tudo & TodasA dificuldade de se auto descobrir é ainda maior, quando o assunto não é abordado em família. A definição da identidade de gênero se torna ainda mais difícil quando não há o apoio familiar
A dificuldade de se autodescobrir é ainda maior quando o assunto não é abordado em família. A definição da identidade de gênero se torna ainda mais difícil quando não há o apoio familiar

A abertura para o diálogo também é muito importante para expressar os anseios e desejos, por isso o papel da família é fundamental nesta questão de descoberta de gênero e identidade. Quando a família entende a situação e aceita a decisão da transexual, o convívio é mais transparente. "Assim o caminho aberto e possível para o diálogo começa a se delinear no contexto familiar, onde é possível ser quem somos, expressar nossos desejos, nossos jeitos, anseios e angústias, que não precisam ser iguais aos que planejaram para a gente", afirma a psicóloga.

Foto: Divulgação / Tudo & TodasO apoio de um especialista pode contribuir com a descoberta da identidade de gênero
O apoio de um especialista pode contribuir com a descoberta da identidade de gênero

O sentimento dos transexuais, o periodo de transição e a dificuldade de realizar esta travessia é um tema que merece destaque. E para encontrar as respostas para todas estas dúvidas, é importante um apoio de um profissional. Conforme a psicóloga, não há uma fase específica para a formação da identidade de gênero. Ela acredita que normalmente desde o nascimento, passando pela infância e assumindo um pico na adolescência, esse processo de identificação e formação vai ocorrendo. "No processo de individualização o sujeito vai assumindo uma postura única e propriamente sua, delimitando assim o seu espaço, a partir da formação da sua identidade. A formação da identidade é um assunto complexo e delicado, interferido por diversos processos externos e internos, que se atravessam ao longo da vida de todos nós", considera.

Foto: Divulgação / Tudo & TodasA personagem Ivana não tem vaidade e não fica à vontade quando coloca acessórios e roupas femininas
A personagem Ivana não fica à vontade quando coloca acessórios e roupas comemumente classificadas como 'femininas'

Apesar de representar uma ameaça para muitas pessoas que não estão sujeitas às mudanças e que seguem as concepções convencionais, este tema sobre sexualidade deve estar mais presente nas discussões e nas relações sociais. Conforme a psicóloga, quanto mais se fala sobre determinado assunto abertamente, oportunizando novos pensares acerca de crenças que construímos e que encaramos como verdadeiras, mas que não necessariamente sejam, mais espaço damos para que isso se torne comum e aceito socialmente.

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Na novela, atualmente, a personagem está entre idas e vindas com o personagem Claudio, com quem vive um romance. Não sabemos como a história irá se desenrolar, mas vale dizer que um relacionamento entre eles é possível, mesmo após a descoberta de Ivana como transexual homem. Isso porque identidade de gênero (como nos identificamos) é diferente de orientação sexual (por quem sentimos relação afetiva/sexual).

Vale dizer que Ivana é a primeira personagem trans das novelas brasileiras, e a descoberta e transformação da personagem pode - e deve - causar bastante debate entre os telespectadores.

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