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Vida na Europa: escolhendo a universidade para nossa primogênita na Inglaterra

Viagem por: Solange Silberschlag Beglin em: 02/09/2017 | 15:00

O futuro dos nossos filhos é sem dúvidas uma das maiores preocupações como pais. Queremos vê-los felizes e satisfeitos com suas escolhas. E a educação é justamente uma dessas escolhas em que o apoio do pai e da mãe é fundamental.

Foto: Arquivo Pessoal / Tudo & TodasEstamos vivend com Victoria esse importante momento de sua vida acadêmica
Estamos vivend com Victoria esse importante momento de sua vida acadêmica

Desde o ano passado eu embarquei com nossa primogênita, Victoria, numa viagem de conhecimento sobre a preparação para o ensino superior aqui na Inglaterra, bem diferente da realidade brasileira que vivi. Mesmo morando aqui há mais de 23 anos e com marido inglês, estamos descobrindo com nossa filha mais velha o mundo atual das universidades britânicas.

O sistema de educação no Reino Unido é um dos melhores do mundo. O estudo é integral e totalmente gratuito nas escolas públicas. As crianças praticamente passam o dia todo na escola, das nove da manhã até as 15h30min, com direito (opcional) a café da manhã, almoço e em alguns estabelecimentos são oferecidas atividades extra curriculares depois do horário normal de aula.

Tudo bem diferente do Brasil. A começar pelo ano letivo que inicia na primeira semana de setembro e termina em meados de julho. O calendário de férias escolares é praticamente incompreensível aos professores e alunos brasileiros! O ano é dividido em três trimestres (terms, em inglês) coincidindo com datas importantes, como Natal e Páscoa. A cada final de trimestre (end of term) as crianças têm férias de duas ou três semanas e no verão são pelo menos sete semanas!

Foto: Arquivo Pessoal / Tudo & Todasuniversidade de cambridge conta com 31 colleges
Universidade de Cambridge conta com 31 colleges
Foto: Arquivo Pessoal / Tudo & Todaspatio interno do Queen
Pátio interno do Queen's College, Universidade de Cambridge

E se não bastasse tanta folga, no meio de cada trimestre (ou seja, a cada seis/sete semanas de aula) as escolas fecham para recesso de uma semana (half-term) e a criançada aproveita o tempo livre. O ensino é obrigatório até os 18 anos. Nenhum aluno repete ano aqui, assim as classes são homogêneas, com alunos da mesma idade.

As crianças iniciam na escola primária aos quatro anos e geralmente aos 11 anos acontece a transferência para escola secundária, ou de ensino médio.

Na Inglaterra a grade curricular é dividida em seis ciclos de estudos. Aos 16 anos (12° ano) os estudantes terminam uma etapa do modelo de ensino prestando exames a nível nacional (sem questão de múltipla escolha!), os GCSEs (da sigla em inglês, Certificado Geral de Ensino Médio). De acordo com o desempenho nestas provas de GCSE eles podem escolher em seguir o ciclo avançado (curso A Level com duração de dois anos) que leva ao ensino superior ou podem optar por cursos profissionalizantes e técnicos.

No final do curso de A Level os alunos prestam novamente provas nacionais que são determinantes ao ingresso no ensino superior. Um fato bem interessante é que no curso de A Level os alunos estudam no máximo cinco matérias, a grande maioria se restringe a três, e são disciplinas escolhidas pelos próprios alunos, de acordo com o curso superior que queiram fazer.

O estudo, no entanto, é aprofundado, com carga horária intensa, e praticamente serve como curso de base para entrada na faculdade. Esse sistema foi um choque para mim! Pois de repente, aos 16 anos minha filha estava escolhendo seu futuro profissional.

Desde pequena Victoria queria estudar línguas, sendo bilíngue e fluente em francês depois de ter morado na França durante quatro anos, ela acreditava num futuro linguístico (e a mãe aqui, também!). No entanto, sua paixão por matemática, química e biologia a fizeram mudar de planos e assim, aos 16 anos ela decidiu pela carreira de pesquisa científica, na área de ciências naturais e bioquímica.

Na próxima semana ela retorna à escola para cursar o último ano de A Level (ela estuda matemática, química, biologia e espanhol) e em junho do ano que vem prestará exames nacionais nestas matérias e que serão determinantes para seu ingresso na faculdade.

As opções de universidade, entretanto, são finalizadas até outubro. E assim nestes últimos meses visitamos várias instituições de ensino que oferecem o curso que interessa à Victoria para confirmar sua escolha.

Em maio e junho fomos na universidade de Cambridge três vezes para visitar alguns colleges e onde também a Victoria teve oportunidade participar de uma aula modelo no curso de ciências naturais para ter uma ideia real de como é a vida acadêmica na instituição.

Foto: Arquivo Pessoal / Tudo & TodasEntre as visitas, a Imperial College
Entre as visitas, a Imperial College

Em Londres visitamos a Imperial College, renomada no campo de pesquisa científica, e onde também ela pode participar de uma classe no laboratório. Ainda na capital, conhecemos a UCL (University College London) e King"s College London. A universidade de Durham, no norte da Inglaterra, também fez parte das nossas visitas.

É um processo tão diferente daquele que vivi no Brasil! Aqui os pais participam ativamente na escolha acadêmica dos filhos. Pois aqui na Inglaterra a universidade frequentada conta muito mais do que o curso em si. Um diploma de umas das universidades do renomado grupo Russell (conjunto de 24 instituições reconhecidas mundialmente pela qualidade de ensino oferecida), independente do curso, tem grande valor no mercado de trabalho.

E, naturalmente, estas instituições exigem no processo seletivo conceitos máximos nas provas finais de ensino médio e acabam atraindo os alunos com melhor desempenho.

A inscrição para ensino superior é online (feita pelo aluno, sem envolvimento dos pais!), em sistema único, através de um órgão central, UCAS (Universities and Colleges Admissions Service - da sigla em inglês, centro de matrículas a universidades e instituições de ensino superior) e que controla o ingresso às universidades britânicas. Os estudantes podem escolher cinco opções de cursos/universidades.

A seleção é realizada pelas instituições de ensino levando em conta vários fatores, entres eles - e mais importante - os conceitos obtidos nos exames de A levels (na verdade, no momento da inscrição os estudantes fazem uma estimativa de seu aproveitamento nas provas finais) e carta de recomendação de um professor confirmando tal desempenho. É ainda fundamental que o aluno faça uma carta de apresentação de no máximo 500 palavras, (em inglês, personal statement) onde ele descreve seu perfil, habilidades pessoais, atividades extracurriculares e explica seu interesse na área de estudo pretendida, e por que ele merece uma vaga no curso.

Esta carta de motivação é primordial no processo de seleção e deve ser muito bem planejada pelo aluno. Experiência de estudos, viagens, trabalho voluntário, talento musical e esportivo, tudo conta para o sucesso na oferta de uma vaga. Para cursos nas famosas universidades de Oxford e Cambridge os candidatos são entrevistados durante o processo seletivo.

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>> ENSINO SUPERIOR - DIFERENÇAS ENTRE BRASIL E INGLATERRA

1 - Aqui não existe vestibular para ingresso no ensino superior.

2 - Ensino Médio com avaliação contínua, cumulativa e determinante para ingresso à universidade.

3 - Ensino Médio com estudo aprofundado de matérias específicas, geralmente somente três disciplinas relacionadas ao curso superior pretendido.

4 - Até 2012 o ensino superior era praticamente gratuito na maioria das instituições britânicas. Atualmente a anuidade varia entre £8 mil e £9 mil libras (cerca de R$ 41 mil) e é totalmente financiada por um fundo de financiamento estudantil do governo, oferecendo ainda ajuda de custo mensal ao aluno e auxílio moradia. Financiamento é pago somente depois que o estudante estiver formado e trabalhando.

5 - A maioria dos cursos superiores tem duração de três anos.

6 - Cursos superiores são especializados e aprofundados (módulos com poucas matérias mas intensos). Diploma depende das notas obtidas durante todo curso. Não adianta ir bem só em algumas provas!

7 - A grande maioria das universidades oferece alojamento interno para estudantes durante o primeiro ano e muitas por todo período acadêmico.

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>> TIPO DE DIPLOMAS

1 - First class honours (1st) - Cerca de 10% dos alunos universitários obtêm esse título pois é necessária média de aproveitamento acima de 70% durante todo o curso. (Primeira classe)

2 - Second class honours, upper division (2:1) - Média de aproveitamento entre 60-70%. A grande maioria dos estudantes britânicos saem da faculdade com esse diploma. (Segunda classe, divisão superior)

3 - Second class honours, lower division (2:2) - Média de aproveitamento entre 50-60%. Está longe de ser o melhor, no entanto é aceitável pela maioria das empresas. Título mínimo para alunos que querem prosseguir em estudo de pós-graduação. (Segunda classe, divisão inferior)

4 - Third class honours (3rd) - Média de aproveitamento entre 40-50%. Não é bem visto no mercado de trabalho. Cerca de 20% dos estudantes terminam a faculdade com esse diploma. (Terceira classe)

5 - Ordinary degree (Pass) - Média de aproveitamento entre 35-40%. Sem mérito, não vale praticamente nada no mercado de trabalho nem acadêmico. (Comum)

6 - Joint Honours (Duplo) - Alguns cursos oferecem a possibilidade de formação dupla. O aluno pode se especializar em duas matérias diferentes. Por exemplo, filosofia e espanhol, obtendo graduação em ambas disciplinas, dependendo do número de créditos estudados. O título se chama 'Joint Honours', assim dividido:

Major-minor: mais de 50% dos créditos em uma matéria.

Joint: mesmo número de créditos em cada matéria.

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